-Alguém vai fazer algo?
Se eu fosse contar a história da menina-esquecida e do menino-de-pelo diria que se conheceram no céu, onde tudo é possível. Nesse mesmo dia perderam a noção do tempo (se é que no céu se preocupam com coisas assim) e ficaram por lá até cansar.Quase atolamos uns dois pares de vezes. Nos perdemos, não enxergamos - o Thi dirigiu com a cabeça para fora por uma meia hora, pelo menos, enquanto eu tentava secar o vidro e segurava o circuito do alarme desmontado na frente do ar condicionado. Todos com a roupa enxarcada, hora para chegar e medo na espinha. Sem esquecer do pessoal do pau-de-arara (incluindo o cachorro) fazendo arruaça cada vez que passávamos com a bendita música da cavalaria, e as tantas pessoas que infernizamos com a pergunta: 'Para onde fica Cuiabá?' (imagino o que eles pensaram da cena: quatro pessoas ensopadas dentro de um carro embaçado, com um alarme disparado, pisca alerta aceso, perguntado sobre uma grande capital...).
E para provar que quando o astral do pessoal é bom tudo dá certo, chegamos a tempo e o alarme parou logo que entramos na cidade.
...
Meu tênis nunca mais vai ter a mesma cor.
* Diz a lenda que carros desengatados, naquela subida, andam sozinhos.
** Tetê Espíndola liderava por lá!
*** Saímos de Cuiabá com o sol bem quente e chegamos na Chapada com o maior toró do mundo! Vai explicar...
Dessa vez ela não foi (muito) curiosa e ficou parada quando o coelho branco passou...
Voltando do aeroporto de Viracopos, em Campinas, vi as torres da Paulista surgindo longe.
O China é um senhor que mora embaixo de um carrinho de apanhar papelão na primeira esquina da rua. Tem os cabelos brancos na altura do queixo e aqueles olhos ao mesmo tempo puxados e arregalados que só os chineses têm. Na boca faltam alguns centroavantes, mas anda com esse sorriso banguela e o inseparável boné pelos Jardins o dia todo, sempre com uma porção de caixas no ombro. O carrinho dele, todos os dias, quando passo por lá, está com uns três metros de altura. Não entendo muito bem de medidas e nem sei onde ele arruma tanto papelão (esse povo daqui é tão sovina), mas o fato é que o carrinho fica bem alto.
Quando o China (ninguém sabe o nome de registro dele) chegou, há algum tempo, tinha uma cadela preta. Hoje tem três. As cachorras têm aquelas tigelas de metal para comida e o China arruma as três bem perto da guia da calçada, uma ao lado da outra.
É cuidadoso: prende as cadelas na coleira, amarra no carrinho, dá banho nas "meninas", limpa a casa e tem as cobertas todas dobradas debaixo do carrinho, do lado do rádio de pilha.
O pessoal daqui diz que o China na verdade é rico, que essa coisa de morar na rua e catar papelão dá dinheiro.
Sovinas e cretinos.
(em 04.08.2006)