Falar tem sido difícil.
A pergunta: "o que você tem feito nos últimos 17 meses"?
Resposta óbvia martelando ("nada", "nada", nada") e o cérebro se contorcendo para encontrar alguma luta com mil dragões, uma viagem espetacular, uma mudança no cabelo ou uma aventura qualquer. É lógico que eu não tenho feito "nada" nesse tempo todo. Mas foi o "nada" que saiu, numa voz escondida.
Assisti várias peças, shows, filmes; novos amores vieram, ficaram um pouco, acabaram; comi coisas estranhas, voltei a andar de bicicleta, saí da faculdade, retomei minhas auto-lições de inglês, encontrei meu marido dos oitenta anos, aprendi sobre aviões e reatei laços antigos (alguns não tão antigos assim); a palavra "família" tem tido, a cada dia, um novo sentido; cheguei em casa com o sol nascendo, me fantasiei, ganhei uma promoção; baguncei, quebrei o aquário do falecido peixe (foi um acidente), gastei dinheiro com livros, fui ao estádio, vi o Ceni marcar um gol, usei saia, gastei dinheiro com porcarias, comi churrasco na rua, usei rímel, aprendi uma mágica nova (essa é uma das porcarias com as quais gastei dinheiro), usei salto, aprendi o significado de "herege" e joguei minhas agendas dos anos 90 no lixo.
Por que essa dificuldade de dizer as coisas na hora que elas têm que ser ditas?
HEREGE: adj. e s.m. Que ou aquele que professa uma heresia ou doutrina contrária aos dogmas da Igreja. / Pop. Ateu, ímpio, o que não vai à missa nem comunga.
(em 19.06.2006)
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